“Inovação não é só tecnologia, tem que gerar nota fiscal.” A afirmação feita pelo presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, durante painel no Gramado Summit, nesta quinta-feira (7), traduz um dos principais desafios da indústria gaúcha: transformar ideias em resultados concretos em um cenário de pressão por competitividade e necessidade de modernização do setor.
A discussão ganhou força a partir de exemplos práticos, que mostram como a aproximação entre indústria e startups tem se consolidado como caminho para acelerar a inovação, especialmente em áreas com lacunas tecnológicas e de alto valor agregado. Nesse modelo, a colaboração e a divisão de riscos entre empresas, investidores e novos empreendimentos passam a ser parte do processo. Dados apresentados no painel indicam que a indústria responde por cerca de 78% da inovação no estado.
Bier ilustrou esse conceito ao relembrar o início da sua trajetória como industrial, quando decidiu investir em uma solução improvável para retirar um barco afundado na Lagoa dos Patos. Inspirado por uma história em quadrinhos e após identificar uma possibilidade técnica com o uso de isopor, ele apostou na ideia mesmo diante da desconfiança de outros, viabilizando o projeto com apoio financeiro e transformando a iniciativa no seu primeiro resultado relevante como empreendedor. O exemplo reforça que a inovação, mais do que associada à tecnologia digital, está ligada à capacidade de identificar problemas, combinar conhecimentos e assumir riscos para gerar soluções viáveis.
O relato de Raphael Balboni, sócio-fundador da i9MaT, startup formada por pesquisadores que produz biossensores, mostra que a tecnologia, por si só, não garante espaço no mercado. “Não adianta ter uma tecnologia validada se a gente não souber conversar com a indústria e entender o que o mercado busca”, afirmou.
A origem no meio acadêmico dificultou a transição para o ambiente de negócios, levando a i9MaT a buscar apoio para transformar pesquisa em aplicação prática. Foi com a participação no programa Base, iniciativa do Sistema FIERGS voltada ao desenvolvimento de deep techs (empresas que criam tecnologias inéditas), que a startup passou a estruturar sua entrada no mercado e a se aproximar de potenciais parceiros industriais.
Apesar dos avanços, um dos principais entraves ainda é fazer com que iniciativas e oportunidades, como o Base, cheguem, de fato, às empresas, especialmente às de pequeno e médio porte. A dificuldade de acesso à informação e aos instrumentos disponíveis limita a capacidade de transformação do setor, reforçando a necessidade de ampliar a conexão entre indústria, pesquisa e mercado. Papel que vem sendo assumido por iniciativas como o Balcão da Inovação, ao aproximar empresas de soluções e parcerias. O painel também contou com a participação do diretor do Sistema FIERGS e coordenador do Conselho de Inovação e Tecnologia (Citec), Marcus Coester, e do gerente-executivo de Tecnologia e Inovação do Senai-RS, Victor Gomes.